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  • Elaine Weingartner

A ironia da modernidade




Venho de uma geração que ouvia música em fita K-7 e vinil e que depois passou para o CD, o mp3 player (baixando de sites como mp3VA.com), as playlists no celular e finalmente plataformas digitais como o Spotify... Não apenas fomos nos adaptando ao novo mundo digital, como, é importante frisar, nós ajudamos a criá-lo. (veja: Bill Gates tem 64 anos, Bezos 56 e Steve Jobs, se vivo, estaria completando 65 anos, etc., etc...).


Li recentemente uma reportagem (onezero.medium.com › classic-ipod-hackers-say-there-is-no-better way-to-listen-to-music) que contava como, apesar da Apple ter descontinuado anos atrás o último dos iPods com click-wheel, uma grande comunidade de modders (1) de iPod estava ressuscitando os aparelhos por seu som e pela “nostalgia”, afirmando ser essa a melhor forma de ouvir música. Esses modders, cheios de nostalgia por um passado tão recente, são pessoas na faixa dos 30 anos, e que são consideradas, tanto pela mídia quanto pelas empresas, como descoladas, adaptáveis e em sintonia com o mundo digital que está aí.


A ironia disso é que as pessoas de minha geração de 50+ (a tal Geração X) são preteridas hoje no mercado de trabalho justamente por serem tachadas como pouco adaptáveis às mudanças do mundo corporativo e presas ao passado.


Notícias frequentes são veiculadas na mídia sobre o crescente ageísmo (2) na sociedade atual e acredito que só isso explica porque o saudosismo de pessoas de 30 anos é considerado cool e possui um certo charme vintage, enquanto o mesmo sentimento de cinquentões e sessentões é coisa de velho e cheira a naftalina (se não acreditam que vivemos em um mundo preconceituoso em relação à idade basta lembrar da polêmica envolvendo a turnê da Madonna em 2019).


É claro que o pessoal da Geração X sente aquele tipo de saudade carinhosa do tempo de juventude e de tudo que cercava aquela época. Mas adivinha! Isso não nos torna menos eficientes ou resistentes às mudanças ou incompetentes para lidar com o novo. Isso apenas revela que somos humanos. Ponto.


Uma recomendação que faço a todos, sem exceção, de empreendedores a CEOs, de Gerentes de RH a coachs de carreira e qualquer que seja o seu cargo dentro de uma organização: que tal dar um tempo com livros de gestão contendo os 7 passos para o sucesso, os 10 hábitos para se tornar uma pessoa super eficaz, ou os que prometem riqueza empreendedora em 5 passos básicos, rápidos e fáceis e incluir no cardápio a chamada Grande Literatura?


Sim! Estou recomendando Proust, Tolstói, Tchekhov, Twain, Dickens, Machado, Cervantes... Em seus textos não há listas de passos em bullet points, nem diagramas ou estatísticas, mas uma gama quase infinita de ponderações sobre a condição humana. Lá podemos compreender que afinal sentir saudade do tempo que passou é normal, de que todo ser humano possui uma certa inadequação para viver o novo, abraçar o futuro desconhecido e abandonar o passado tão bem mapeado (mesmo que esse seja recente).


Com a literatura, mais do que qualquer outro tipo de arte, podemos aprender (e entender) sobre o ser humano, suas aspirações, fraquezas, medos e potencialidades e parar de tentar simplificar a rica experiência humana em alguns gráficos, pesquisas de mercado ou 8 passos para a transformação mágica...


Começamos a perceber a humanidade que existe por trás dos crachás e cartões de visita e passamos a julgar pessoas pela sua história e pela capacidade que mostram no dia a dia e não lhes atribuir definições generalistas e características pré-concebidas.


Ao demitirem ou não contratarem profissionais maduros, as empresas estão deixando de se aproveitar de algo que nenhuma universidade pode entregar: maturidade para lidar com a vida real.


Desculpem os acadêmicos, mas nenhum MBA prepara melhor que a própria vida para a arte de viver. E maturidade só se ganha vivendo, errando, tropeçando e se reerguendo ao longo de vários anos.


E nenhum MBA nos prepara para o futuro. O frio na barriga que muitas pessoas demonstram em relação a esse assunto é apenas humano.


Assim, quando tiver um problema real e sério para resolver, tente incluir no time um cara com cabelos grisalhos e bom senso (que talvez não saiba programar IA de traz pra frente, mas aposto sabe mais sobre gente do que a maioria dos modders da reportagem que deu origem a esse pequeno texto).


Por que não basta ser disruptivo com bugigangas eletrônicas e APPs: o mundo precisa urgentemente começar a ser disruptivo em relação aos preconceitos criados por sua “vã Filosofia”.



(1) pessoas que fazem modificações em algo, especialmente hardware, software e motores automotivos.


(2) termo criado em 1969 pelo psiquiatra americano Robert Butler. Como se vê o preconceito é antigo. A novidade é que a população de 50+ hoje é muito mais representativa, economicamente significativa e continua crescendo.

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